Hoje em Dia

Lady Campos
Repórter

Jovens designers e futuros estilistas aceitaram o desafio de conjugar o verbo recriar a partir do tão sonhada sustentabilidade na moda. Na passarela do Eco Fashion, plataforma de lançamentos da Primavera/Verão 2008/09 do Minas Shopping, que aconteceu nos dias 6 e 7 de outubro, no Ouro Minas Hotel, estudantes dos cursos de Design de Moda e de Estilismo da UFMG, Fumec, Uemg e Uni-BH apostaram na criatividade para apresentar roupas com possibilidades diversas.
Engajados na missão de usar materiais reaproveitáveis, eles criaram roupas usáveis a partir de sacolas adquiridas em compras, sacos de lixo, refugo de silicone industrial, faixas publicitárias e de segurança abandonadas pela cidade, persiana usada, sobras de fábricas - presilhas de calças, botões e zíperes -, além de outros materiais inusitados como negativos de filmes.


Depois da febre das ecobags em americano cru, as sacolas de plástico estão de volta. Pelo menos na minicoleção do estudante da Uni-BH Raphael Gonçalves Ribeiro, de 23 anos. Por suas mãos, sacos de lixo e sacolas plásticas adquirirem texturas enrugadas e aspectos de tramados decorando vestido, saia e colete de modelagem requintada.
‘Cortei e modelei no olho‘, disse Raphael, com sua ‘Costura Plastificada‘ (nome da minicoleção). Sem abrir mão de experimentações no plástico, ele montou um colete de trama vertical a partir de 150 círculos de sacolas com alças e fundo recortados, sutilmente amarrados um a um, e depois colados sobre forro que imita cetim.
O novo jeito de trabalhar o plástico deu à peça aspecto frontal matelassado e costas com felpudo que lembra tecidos invernais.

Com a mesma técnica, Raphael também montou um vintage vestido branco de cintura marcada, saia godê e sem gola. O diferencial, neste caso, é a trama da peça montada na horizontal.
Em outro momento, o saco para lixo se transforma em material enrugado e brilhante por força do aquecimento do plástico, que ganha cara nova na saia modelada em godê duplo e forrada em TNT. ‘Quis mostrar as pessoas que existem alternativas e novas possibilidades de uso de materiais que demoram anos (cerca de 500) para desaparecer na natureza‘, conta Raphael, primeiro colocado no concurso ‘Novos Criadores‘, que integrou o Eco Fashion.

As estudantes de Design de Moda da Fumec, Juliana Antunes Pádua e Laís Torres de Melo, de 21 anos, não fugiram à responsabilidade de cidadãs conscientes da importância de reaproveitar produtos, nem mesmo sacos de lixo.
Depois da lavagem do material, as jovens, que abocanharam o segundo lugar no ‘Novos Criadores‘, tentaram mil e um efeitos (como o aquecimento usado por Raphael) transformando o insosso plástico preto em matéria-prima com bolhas, amassados e pespontos. Surpresa maior no momento de costurar o material. ‘É mais fácil costurar plástico que tecido‘, constata Juliana. Intitulada ‘Urban Trash‘, a minicoleção da dupla é impregnada de perfume retrô com contraponto futurista emprestado pelo brilho do ‘novo plástico‘.
O apelo de construir roupas economicamente viáveis, socialmente justas e ecologicamente corretas incrementou o leque de possibilidades dos participantes. Pâmela Cordeiro, estudante de Estilismo da UFMG, desenvolveu roupas a partir de sobras de presilhas de calças abandonadas em chão de fábricas. O material foi inserido ao longo das peças e ganha destaque no vestido estilo melindrosa, com os passantes fazendo as vezes de franjas. Nem os acessórios ficaram de fora da estética proposta por Pâmela, que ficou com a terceira colocação. Modelos de sandálias gladiadora e rasteirinhas exibiram as presilhas junto com outros elementos, como flores de tecido.
A dupla formada pela estudante da UFMG Aderlize Martins e o artista plástico Daniel Escobar reutilizou tecido de faixas publicitárias na construção de vestido soltinho e faixas de isolamento aquecidas em ferro de passar roupa para recriar estamparia. A pesquisa do casal, que há menos de um ano deixou Porto Alegre para morar em BH, reúne ainda outros resíduos da rua. ‘Coisas que fazem parte do histórico da cidade‘, sugere Daniel, um dos artistas selecionados no Bolsa Pampulha, projeto encampado pelo Museu de Arte da Pampulha.
Com idéia semelhante, Fabiana Dias, 23 anos, também se apropriou das faixas publicitárias para recriar seus looks. Em sintonia com a onda ecofriendly, utilizou durante sua apresentação lindos pisantes em garrafa pet da Jamil Calçados.
A garrafa pet, aliás, surgiu em forma de tecido utilizado nas coleções da dupla Daniel e Aderlize, e no trabalho de outra participante, Brisa Mendes. Enquanto a dupla gaúcha mesclou a malha de garrafa pet da Color Têxtil, de Belo Horizonte, Brisa usou fibra pet do e-fabrics (Rio Grande do Sul).

Matéria do jornal Hoje em Dia de Domingo, dia 19/10/2008

Um comentário:

presswordponto disse...

querido, você arrasa!
beijo!