eu, Raphael Ribeiro

Eu sou o jovem Raphael Ribeiro, de 23 anos, que desde a adolescência é fascinado pela criação, quando mais novo, por volta de 15 anos, pensava em ser cirurgião plástico, acreditava que assim, poderia deixa as pessoas mais bonitas, melhor consigo mesma, meu pensamento era que seria ótimo poder ver minha mãe feliz sem aquela barriquinha que ela tanto reclamava, apesar que eu acho ela linda de qualquer jeito. Mas o tempo foi passando e essa vontade de ser cirurgião também. Quando eu estava no ensino médio, tive um contato muito bom com uma matéria, geometria espacial, isso foi muito peculiar, pois até então, nunca tinha me dado bem com a tal Matemática. Eu me encantei com aquelas formas, aqueles cálculos, (mais com as formas do que com os cálculos), e foi ai que me vi como um futuro arquiteto, pensei muito nessa possibilidade, ainda mais que estava no segundo ano, faltava apenas um ano pra me formar, e o vestibular estava às portas, só que a famosa matemática me fez pensar muito. Pesquisando sobre a profissão, sobre o curso de arquitetura, vi que não era aquilo mesmo que queria, não me via no meio de tantos cálculos e números, assim, a vontade se criar, prédios, levantar edificações mirabolantes e diferentes, foi passando, junto com a vontade, o tempo também passava e eu já estava quase me formando no ensino médio.

Quando eu comecei a trabalhar, em uma financeira, no setor de análise de crédito, minha primeira função foi arquivista, era meu primeiro emprego em uma empresa grande, era ótimo, adquiri responsabilidade, conhecimento, dentre outras coisas. Minha chefe de setor, era a Soraya, uma executiva de sucesso, super rígida e exigente, que ao mesmo tempo era um amor comigo, nos dávamos muito bem, tanto dentro quanto fora da empresa, tinha dia que na parte da manhã, podia acontecer algum problema, ela me advertia, mas já na hora do almoço ela me chamava pra comer com ela, era um relacionamento muito bom, ela foi muito importante para o meu crescimento. Foi tão importante, que foi ela quem me falou sobre um curso que eu até então eu não conhecia, o Design Industrial (ela conhecia por esse nome ainda) que hoje é o Design de Produtos. A mãe dela é formada pela Guignard e é professora de artes num colégio, e um irmão dela é formado em belas artes na UFMG e é ator, isso era um dos motivos que faziam nossas conversas render horas, ela sempre foi muito ligada a tudo isso, apesar de ter se formado em economia, um dia ela me falou do Design de Produtos e eu, então, acreditava que ali estaria meu futuro, criar coisas, inúmeras coisas, desde uma escova de dentes até o design de um Avião, fiquei encantado com o curso, me inscrevi pro Vestibular da UEMG, por dois anos consecutivos, não passei, mas não via outro curso que me estimulasse a fazê-lo. Até que meu melhor amigo, estudante de Nutrição, do Uni-BH, me falou do Curso de Moda da mesma faculdade, ele tinha feito amizade com algumas meninas do curso e conversando comigo sobre isso, então pensei porque não fazer Moda? Nunca tinha me passado pela cabeça algo do tipo, via moda como uma coisa restrita, que não combinava comigo. Mas pensei, repensei, e vi que poderia ser uma boa escolha. Então decidir tentar o Vestibular, fui aprovado, e o tempo passou, e aqui estou, no último período do curso.

Muitas coisas mudaram desde então, a forma de ver a moda, a forma de me ver trabalhando com a moda. Bem no começo do curso, meu pensamento se resumia em entender sobre esse universo e me especializar em fotografia dessa àrea (sempre fui apaixonado por fotografia, e nesse tempo isso estava mais intenso que nunca, cheguei a fazer um curso e meu sonho na época era comprar uma câmera fotográfica). Não me via como estilista. Mas esse pensamento também foi se lapidando, quando comecei a “colocar a mão na massa” criar pequenas coisas, desenhar, coisa que eu não fazia há muito tempo. À vontade de criar moda, criar roupa, foi se firmando. Até que na matéria Laboratório de Criação, tive um trabalho, onde o intuito foi criar algo com materiais recicláveis, foi nesse período que à parte de “criador”, foi sendo construída em mim, via tudo contextualizado ali, a questão da criação, ver um produto final que saiu da minha cabeça (que antes era escovas de dente, aviões, etc..), agora era materializada em roupa.
Foi nesse trabalho citado, de onde saiu meu primeiro vestido de sacolas. Depois de pensar várias formas de utilizar a matéria prima, fazer, desfazer, eu consegui criar uma trama inédita e dar forma pra ela, transformando assim em vestido branco acinturado, com saia volumosa. Para criação utilizei aproximadamente 500 sacolas plásticas entrelaçadas e aplicadas sobre TNT, apresentando o elemento repetição. O ajuste do busto e cintura foi feito com fita de cetim realizando um ritmo, que é em seguida finalizado com um laço dando a idéia de corset, o vestido é acompanhado por um gola preta feita com espirais reaproveitados de apostilas, trançados, formando uma tela resistente. Depois desse trabalho, fiz outro vestido, com a mesma técnica, porém, com sacolas pretas. O semestre acabou, fiquei muito satisfeito com os trabalhos, porém queria mais, não queria ficar parado.

Foi quando tive a idéia de fazer um mini catálogo com os dois vestidos, corri atrás de marcar o estúdio fotográfico, convidei minha amiga Bruna Carvalho pra fotografar, outra amiga pra maquiar e por fim a Sthéphanie Padilha pra posar, o make-hair ficou por minha conta - acredito que o fato de ser filho de cabeleireira e ter sido criado praticamente dentro de um salão de beleza fez com que eu me tornasse um cabeleireiro por “instinto” - então tudo ficou pronto, o resultado foi fotos lindas que guardo com muito apreço.

A minha professora, Lucia Santiago, da matéria que falei a pouco, laboratório de criação, escreveu no blog dela uma coisa que me deixou felicíssimo: "Quando o Raphael chegou na sala de aula, com um saco enorme cheio de sacolas plásticas brancas amarradas uma à outra, pensei: As sacolas são resíduos comuns da atualidade, muitos artistas e estilistas já percorreram o caminho da utilização de materiais diversos para a confecção de objetos e roupas; então este material não é "novo" para esse propósito...
Mas o processo pelo qual o Raphael estava configurando seu objeto-roupa, delineava um resultado final diferente. Aos poucos foi surgindo um tecido. As sacolas ganharam forma para vestir um corpo. Então ele e ofereceu aos nossos sentidos este lindo presente. Ele criou uma trama para configurar uma roupa, um objeto weareable. Usou como linha condutora os princípios e alguns dos elementos essenciais do design: rítmo, textura, equilíbrio. Seu processo criativo caminha sobre a linha tênue entre a moda e arte..." esse depoimento me incentivou demais.

O tempo passou, e o concurso anual do Minas Shopping para novos criadores estava pra chegar. Fiquei sabendo do tema dessa edição, e vi a possibilidade de trabalhar com sacolas novamente, mas várias coisas me deixavam oscilando entre, fazer ou não fazer? A insegurança era muito grande, pensava que eu poderia cair na mesmice, achei que não daria conta, cheguei a comentar com uma amiga que eu era apenas um estudante que criou um vestido de sacolas que deu certo e ponto. Não me via entre os finalistas, afinal, meus croquis não eram nada fabulosos, conheço colegas de sala que desenham muito melhor que eu. O tempo continuou passando e o prazo de entrega dos croquis foi chegando, e eu não conseguia criar, até que no último dia, na madrugada de sábado pra domingo, nos dias14 e 15 de setembro respectivamente, passei a noite em claro criando os seis looks necessários pra me inscrever no concurso. O dia amanheceu, eu tomei café da manhã e voltei pra fazer as fichas técnicas, 17hs em ponto, estava no shopping com meus desenhos pra me inscrever.

O fim do dia de domingo foi angustiante, estava muito ansioso, segunda feira também, nem consegui dormir direito, até que na terça recebi a notícia de que estava entre os 10 finalistas, foi incrível, fiquei eufórico, fui dormir sem ação. Mas isso foi o começo, a parte mais complexa estava pela frente, a confecção das três peças. Após a reunião no sábado seguinte, com os dez finalistas, decidi os três looks que produziria.

Foi um trabalho extremamente manual e minucioso, não queria usar a habitual agulha e linha, então, tudo dependia de minas mãos, foram intensos 10 dias de trabalho, muitos dedos queimados pela cola plástica, muitos calos também, de tanto cortar sacos de lixos aquecidos, muito, mas muito esforço, mas que no final resultou em um trabalho que me deixou extremamente satisfeito.

O dia do Desfile chegou, a ansiedade era imensa, as incertezas também. Quando fiquei sabendo que seria o último a desfilar, pelo fato de ter o nome começado pela letra R, a última do alfabeto, dentre os 10 finalistas, fiquei mais apreensivo, achava que a espera no backstage seria interminável. O dia do desfile foi só correria, tinha que dar acabamento em uma peça, tinha que ir também na gráfica pegar o Pop-Card que foi entregue aos jurados e jornalistas, e precisava estar no Ouro Minas, local do evento, as 16hs, enfim, corri muito.

Foi uma longa espera até o desfile dos Novos Criadores começar, eu até estava calmo, tinha que esperar as minhas três modelos desfilarem pra outros finalistas, só assim, poderia produzi-las, mas isso acabou me deixando apreensivo, o medo de não dar tempo era imenso, até que tudo deu certo, corrido, mas deu, foi lido meu release, a música começou a tocar, (música que escolhida a dedo, pensei no contexto da letra, pensei no ritmo, não queria uma música comum de passarela, queria uma música que ao mesmo tempo falasse um pouco de mim e da mini coleção) e ai sim, a primeira modelo entrou, enquanto isso eu estava acabando de arrumar a última, até que todas entraram, voltaram e entramos eu e elas. Foi uma experiência indescritível, ver as pessoas aplaudindo, ver sorrisos de amigos e familiares, estava em pleno êxtase, foram menos de 4 minutos, mas foram eternos.

Pronto, minha parte estava feita, agora era esperar o resultado. Foram minutos longos, confesso, em nenhuma hora tive certeza do primeiro lugar, tinha aquela confiança de que tinha feito um bom trabalho, mas a dúvida, creio, que seja normal. O terceiro lugar foi anunciado, não sabia o que estava por vir, o segundo também, nesse momento a adrenalina era imensa, via minha amiga gesticular da platéia assim, “o primeiro lugar é seu”, mas uma dúvida imensa me espreitava e essa incerteza só foi sanada quando meu nome foi revelado, a sensação foi extraordinária, um misto de alegria, euforia, mas ao mesmo tempo não sabia como reagir, não sabia pra onde ir, o que fazer, se pulava, se gritava, só sei que foi uma sensação única. Eu optei por ficar parado, sem reação, com todas essas sensações dentro de mim, esperando ser conduzido. Uma coisa é certa, foi inesquecível.

Depois de todas as formalidades, desci da passarela, passei pelo backstage e cheguei no hall de entrada do evento, muita gente querendo conversar, fotografar, entrevistar, foi surreal. Fui embora estagnado. A ficha demorou a cair, até hoje eu paro e penso sobre tudo, como por exemplo agora que estou aqui escrevendo.

Foi tudo muito gratificante, incrivelmente novo, mas sei que isso é apenas um começo, um começo de uma longa e árdua caminhada, ganhar esse concurso foi importantíssimo, mas não me faz parar, me faz querer mais, me faz querer outros desafios para serem vencidos, outras coisas tão novas quanto foi o Minas Eco Fashion.



Nesse pequeno relato, eu tento, de forma sucinta, falar sobre mim, sobre minha vida e minhas experiências, são poucas, mas bem vividas. Experiências de um rapaz que não sabe de quase nada, se vê perdido às vezes nesse mundo fashion que está entrando, de um rapaz que queria ser cirurgião e acabou no Desing de Moda, mas com o mesmo sonho, criar e fazer as pessoas se sentirem bem e melhores.

Belo Horizonte, 12 de novembro de 2008.

Um comentário:

Vitor Isidoro disse...

Seu texto possui sentimentos... Você transcreve bem o que sente e consegue fazer com que os outros sinta uma pulsante sensação de ler linha por linha cada vez mais rápido, acompanhando assim o ritmo da adrenalina que é causada. Pouca experiência basta para os que sabem dela aproveitar, conhecimento você tem, agora é só se abastecer com força de vontade e confiança no seu trabalho e usar de toda essa criatividade que transborda de um jovem deveras talentoso! Talvez soe clichê associar a palavra "talento" ao seu nome, mas ressalto que são muitos e é inegável essa afirmação, pois mesmo sem que você perceba, você cativa as pessoas não só com seu jeito profissional de ser, mas também com seu jeito humano de agir, através das entrelinhas você se mostra um rapaz cada momento mais interessante perante todo esse mundo bossal.

Um grande abraço meu caro, conte com todo meu apoio, afinal sou também seu fã.